Como fim da guerra afeta o seu dinheiro? 6 respostas sobre juros, renda fixa e bolsa

Como fim da guerra afeta o seu dinheiro? 6 respostas sobre juros, renda fixa e bolsa — Real Estate | Versia.media

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O anúncio de um entendimento inicial entre Estados Unidos e Irã para pôr fim a quase quatro meses de hostilidades recolocou a geopolítica como ponto central nas decisões de investimento, agora em direção oposta à observada nos últimos meses. A assinatura oficial está agendada para sexta-feira (19), na Suíça, e os detalhes completos ainda não foram revelados, o que mantém parte da cautela entre os investidores.

O entendimento geral sugere que o término do conflito trará alívio imediato, com queda no petróleo, inflação mais baixa e espaço para o Banco Central reduzir os juros. As principais gestoras e casas de análise do país, contudo, adotam uma interpretação mais moderada, na qual o acordo tem um impacto menor sobre os preços, com o foco do risco para ativos locais se deslocando para outros elementos.

Fim do conflito abre caminho para redução de juros?

Essa é a expectativa que a maioria das gestoras rejeita. Para a Kapitalo, o choque inflacionário causado pela guerra e pela alta do petróleo já está materializado e tende a persistir mesmo que o acordo seja concretizado. Em entrevista, Bernardo Feijó, COO da gestora, avalia que a oportunidade para o Banco Central acelerar cortes de juros foi encerrada, e os fundos da casa não mantêm posições que dependam de ação do BC no curto prazo. Em carta mensal, a gestora pondera que a normalização do estreito de Ormuz reforçaria a percepção de um choque de oferta temporário, mas ressalva que o cenário permanece incerto.

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O diagnóstico se repete entre as maiores casas do país. Em carta mensal, a Itaú Asset avalia que, mesmo com a reabertura de Ormuz, não se retorna às condições que vigoravam antes da guerra, e aponta que a desinflação brasileira foi quase inteiramente explicada por fatores externos. A Genoa Capital observa que o repasse da energia ainda não chegou de forma significativa ao IPCA e coloca em pauta até a discussão sobre uma eventual retomada de altas de juros.

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O petróleo vai realmente despencar com a reabertura de Ormuz?

A queda recente foi significativa, com o Brent saindo de patamares acima de US$ 100 no auge do conflito para a faixa dos US$ 80 a US$ 90 à medida que as negociações avançaram, chegando a US$ 83 na manhã desta segunda. As gestoras, porém, alertam que a normalização não é instantânea. A Kapitalo segue comprada em petróleo porque entende que o restabelecimento dos fluxos no estreito deve levar tempo mesmo com um acordo, o que tende a manter os preços elevados por mais um período.

No cenário das gestoras, a produção na região do Golfo ainda opera bastante abaixo do nível pré-guerra, e a Legacy Capital chega a estimar que, num cenário de esgotamento de estoques globais, o barril poderia voltar a subir. Petróleo comprado, aliás, aparece como uma das apostas mais comuns entre as casas, embora parte delas tenha reduzido a exposição após a queda recente.

Onde estão as oportunidades na renda fixa?

A disparada dos juros futuros nas últimas semanas colocou os títulos atrelados à inflação no centro das atenções. Papéis do Tesouro pagam taxas reais acima de 8% ao ano em prazos mais curtos, níveis não vistos desde o governo Dilma Rousseff, e que se mantêm nesta segunda mesmo após o anúncio do acordo EUA-Irã. A TAG Investimentos prefere as NTN-Bs mais curtas, justamente as que pagam mais de 8% de juro real, e aponta os prefixados como o maior risco do momento, já que sofrem caso o BC precise elevar os juros.

A recomendação se repete na XP, que projeta a Selic caindo apenas mais 0,5 ponto, para 14% ao ano, e mantém a preferência por papéis indexados ao IPCA de vencimentos curtos e intermediários, com alerta contra alongar prazos em excesso diante da volatilidade fiscal e eleitoral. O pós-fixado segue como base das carteiras pela liquidez. O UBS também gosta da inflação curta, com vencimentos até 2035.

Vale o cuidado com o custo de oportunidade. Uma NTN-B pagando 8% reais rende cerca de 13% ao ano somada ao IPCA, abaixo dos 14,50% do CDI hoje. A compensação vem se os juros básicos caírem mais à frente, quando o papel travado em taxa alta passa a valer mais.

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Lá fora, especialistas também apontam oportunidade rara para travar taxas altas em títulos soberanos dos EUA e europeus.

E o CDB do meu banco, ainda vale a pena?

Depende do indexador e da taxa. Levantamento da Quantum Finance feito a pedido do InfoMoney mostra que, em maio, os CDBs atrelados à inflação ganharam destaque, com taxas médias de até IPCA mais 8% e máximas próximas de 8,5%, enquanto boa parte dos pós-fixados de prazo curto rendia abaixo de 100% do CDI, o que representa perda de eficiência na alocação.

Robson Casagrande, sócio da GT Capital, explica que o mercado paga mais no curto prazo justamente por causa da incerteza com a inflação ligada ao petróleo, num quadro que ele descreve como uma curva real invertida. A orientação geral dos especialistas é evitar pós-fixados que paguem menos que o CDI ou o Tesouro Selic e dar preferência aos papéis de inflação para travar o juro real elevado.

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No crédito privado, o ambiente é de seletividade. Dados da Anbima mostram que os prêmios das debêntures pararam de subir em maio depois da forte alta de março e abril, mas seguem perto das máximas do ano. Para a XP, o carrego continua sendo o rei, com foco em emissores de alta qualidade.

A bolsa caiu de quase 200 mil para 170 mil pontos. É hora de comprar?

Aqui a visão se divide. A XP mantém projeção de Ibovespa a 205 mil pontos ao fim do ano e avalia que o índice migra de um regime guiado por fatores globais para outro dominado por temas locais, com eleição e trajetória de inflação e juros como os dois grandes direcionadores. A casa vê o valuation comprimido após a correção recente como elemento de suporte.

Do lado mais cético, o fluxo estrangeiro que empurrou a bolsa a recordes neste ano recuou, com saída relevante em maio e junho. A TAG alerta para a inconsistência entre um mercado de crédito deteriorado e ações ainda bem avaliadas. Entre as gestoras, a cautela com a renda variável local é generalizada, com a Adam Capital no extremo, vendida no Ibovespa. O UBS recomendou aos clientes embolsar parte dos ganhos do ano na bolsa brasileira e concentrar a exposição em commodities, como Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), ampliando a parcela em bolsas internacionais com foco em tecnologia e inteligência artificial.

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Quais os riscos que passam a importar?

O fator doméstico. As gestoras apontam três vetores simultâneos de risco para os ativos locais, sendo a inflação mais alta, o ciclo de juros no limite e a combinação de fiscal expansionista com incerteza eleitoral. A TAG estima o pacote de estímulos do governo entre R$ 180 bilhões e R$ 295 bilhões, enquanto a JGP aponta a deterioração da relação dívida sobre PIB como o ponto capaz de azedar a percepção dos investidores. A Legacy Capital observa que a curva de juros passou a precificar o risco político de forma independente do cenário externo.

O câmbio resume esse deslocamento. Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos do UBS Wealth Management no Brasil, trata o dólar como o “canário da mina” do mercado, a variável a observar nos próximos meses. Segundo ele, se o real não acompanhar o desempenho das demais moedas emergentes, é sinal de que o investidor precisa redobrar a atenção.

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