Calor extremo faz jogadores de futebol cometerem menos faltas, mostra estudo com 1 milhão de partidas

Calor extremo faz jogadores de futebol cometerem menos faltas, mostra estudo com 1 milhão de partidas

cartão vermelho — Foto: Pexels

Um estudo com quase 1 milhão de partidas de futebol amador disputadas na Alemanha chegou a uma conclusão que vai na contramão do que boa parte da ciência vinha apontando até agora: em dias de calor extremo, os jogadores cometem menos faltas violentas, e não mais.

A pesquisa, publicada na revista científica "PNAS Nexus", mostra que o número de cartões amarelos e vermelhos aplicados pelos árbitros cresce conforme a temperatura sobe — mas só até um certo limite .

Depois desse ponto, a curva se inverte, e as partidas disputadas em dias muito quentes registram, em média, 15% menos cartões do que o normal .

Acompanhe a Copa do Mundo 2026 no ge:

Calendário da Copa do Mundo 2026: veja datas e horários de todos os jogos

RESULTADOS: confira a tabela da Copa do Mundo

Há décadas, estudos em diferentes áreas associam calor a mais violência , de brigas de rua a crimes domésticos, alimentando até projeções de que o aquecimento global tende a aumentar conflitos no futuro.

O problema é que grande parte dessas evidências vem de experimentos de laboratório com grupos pequenos ou de registros criminais, que têm limitações conhecidas: no caso dos crimes, por exemplo, o calor também muda o comportamento das vítimas e a própria rotina das pessoas nas ruas, o que confunde a análise.

⚽ Para tentar isolar o efeito puro da temperatura, os pesquisadores recorreram a um ambiente bem mais controlado: o futebol amador .

Eles analisaram partidas disputadas entre julho de 2022 e setembro de 2025 nas divisões amadoras da federação alemã de futebol, envolvendo mais de 1 milhão de jogadores .

A vantagem desse recorte é permitir uma comparação mais controlada: as regras são as mesmas, as partidas são marcadas com semanas de antecedência , sem influência da previsão do tempo, e os jogadores não podem abandonar o campo simplesmente porque a temperatura subiu.

Assim, usando os cartões distribuídos pelos árbitros como um indicador de agressividade em campo, e comparando partidas do mesmo local, liga e temporada para eliminar outras variáveis, os cientistas identificaram uma curva em formato de U invertido : a quantidade de cartões cresce junto com a temperatura até por volta de 13°C e, a partir daí, começa a cair.

➡️ Acima de 32°C , ápice da amostra, o efeito já é bem visível.

"A agressividade realmente aumenta com a temperatura, mas só até certo ponto. Depois disso, ela cai", disse ao g1 Sascha Riaz, professor de Ciência Política na Singapore Management University e principal autor do estudo.

Segundo ele, o resultado chama atenção justamente por contrariar o senso comum: "exatamente nas temperaturas em que a visão convencional prevê mais agressividade, observamos menos, não mais".

Agora no g1

Por que o calor 'esfria' o jogo

A explicação mais provável, segundo os pesquisadores, não é psicológica, mas física.

Grande parte das faltas que rendem cartão nasce de disputas de bola em alta intensidade — carrinhos mal calculados, entradas atrasadas, disputas de cabeça no limite do esforço.

Em dias muito quentes, os jogadores parecem administrar melhor as próprias forças, como um maratonista que reduz o ritmo para não desabar antes da linha de chegada.

Com menos lances de alta intensidade , sobram também menos oportunidades para uma falta acontecer.

"Em dias muito quentes os jogadores se poupam e reduzem o esforço físico, então surgem menos situações de alta intensidade — e menos delas terminam em falta", explicou Riaz.

Dois achados do próprio estudo reforçam essa leitura: o ponto de virada calculado, por volta de 13°C , coincide com a faixa de temperatura já apontada por outras pesquisas como ideal para o desempenho físico prolongado.

Além disso, a queda é mais forte nos cartões amarelos — geralmente ligados a lances de disputa física — do que nos vermelhos, que costumam punir infrações sem relação direta com esforço, como ofensas verbais ao árbitro.

Os autores também descartaram, com base em pesquisas anteriores, a hipótese de que os próprios árbitros mudassem seu critério de julgamento com o calor: estudos já mostraram que a capacidade de decisão de árbitros de futebol não piora em condições de calor extremo, o que reforça que a mudança está no comportamento de quem está em campo, e não em quem apita o jogo.

LEIA TAMBÉM:

Árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio dá cartão vermelho durante o jogo de abertura da Copa do Mundo (México x África do Sul) — Foto: Yuri Cortez/AFP

Alerta para a Copa do Mundo

Apesar do tamanho da amostra, os próprios pesquisadores fazem ressalvas. Apenas 0,2% das partidas analisadas foram disputadas acima de 32°C , e a maior parte do banco de dados vem de times masculinos, o que limita a possibilidade de generalizar os achados.

"O calor extremo é raro na Alemanha. Se esses achados valem para outros contextos é algo que pesquisas futuras precisam investigar", ponderou o pesquisador.

Mas com a Copa do Mundo de 2026 em andamento e uma onda de calor prevista para atingir parte dos Estados Unidos nos próximos dias, é tentador imaginar se o mesmo padrão vale para o futebol profissional.

Riaz é cauteloso: o estudo foi feito justamente com amadores, deixando de fora atletas de elite, que contam com pausas para hidratação, aclimatação prévia ao calor e, em muitos casos, estádios com clima controlado — fatores que podem amenizar o efeito observado entre amadores.

Mais importante, segundo o próprio autor, é não tirar da pesquisa uma conclusão equivocada sobre segurança.

"Menos cartões não deve ser confundido com prova de que o calor é inofensivo", afirmou Riaz.

Para ele, se a interpretação do estudo estiver correta, os jogadores jogam de forma mais contida justamente porque o corpo já não aguenta manter a intensidade normal sob calor extremo .

"O jogo mais contido é um sintoma de corpos sob estresse térmico", resumiu — um lembrete de que, mesmo com menos faltas em campo, o calor extremo continua sendo um risco real à saúde de quem joga.

Homam Ahmed, do Catar, recebe cartão amarelo durante partida contra o Canadá pela Copa do Mundo de 2026. O jogador foi expulso após revisão do lance pelo VAR. — Foto: Anne-Marie Sorvin/Imagn Images via Reuters

LEIA TAMBÉM:

Fotógrafo do RS faz imagem incrível de cometa 'mais brilhante do ano'

← Real Estate