
'Não venham para cá', alerta brasileiro que luta na guerra da Ucrânia
O brasileiro Thiago Morais da Silva Moita, que deixou o litoral paulista para servir no Exército Ucraniano após perder R$ 340 mil em apostas on-line , fez um alerta diante da repercussão da própria história. Ele afirmou que a guerra "não é solução" para o enfrentamento de vícios ou ganho de dinheiro e ressaltou o desejo de voltar para casa.
"Não quero ser motivação para as pessoas (sem treinamento) virem para a guerra. Aqui não é a solução para vocês", disse ele. "Se pudesse ir embora agora, neste exato momento, com certeza iria, mas não posso. Não quero mais participar da guerra".
Ao g1 , Moita explicou que o contrato com o Exército Ucraniano tem duração de três anos. No entanto, ele só pode pedir a rescisão ao completar seis meses de serviço. Ele aguarda o desligamento que ainda depende da aprovação do batalhão ao qual está vinculado.
Morador de Iguape (SP), o brasileiro de 35 anos disse ter tomado a decisão de se alistar "sem pensar" e, apesar da participação na guerra ter ajudado a vencer a ludopatia, pessoas viciadas devem buscar ajuda de um profissional especializado.
🔍 Ludopatia é o vício em jogos de azar e apostas. Classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental, afeta o sistema de recompensa cerebral.
Thiago Morais da Silva Moita, 35 anos, luta na guerra da Ucrânia — Foto: Reprodução/Instagram
Desabafo na madrugada
Em um relato gravado durante a madrugada na Ucrânia, Moita disse que ficou surpreso com a repercussão da própria história e que recebeu centenas de mensagens de pessoas sem treinamento militar, que enfrentam o vício em apostas e pensam em seguir o mesmo caminho.
"'Olhando para trás, tenho pena de mim mesmo. Não quero isso para ninguém. É preciso buscar outra forma de sair dessa. A minha forma foi vir para cá, mas agora que estou aqui... Posso morrer a qualquer momento. Estou aqui, mas a qualquer momento pode cair uma bomba", disse.
Moita afirmou que se curou do vício durante a guerra e não aposta desde janeiro deste ano. No entanto, ele destacou a necessidade de suporte profissional. "Procure um psicólogo e tenha uma 'babá financeira'. Deixe suas contas com quem sentir confiança. Mas, sinceramente, do fundo do coração, aqui não é solução para você vencer vícios em jogos", concluiu.
Vida antes da guerra
Thiago Moita, de 35 anos, deixou Iguape e alistou-se no Exército Ucraniano para combater o vício em apostas virtuais. — Foto: Arquivo pessoal
Natural do Rio de Janeiro (RJ), Moita cresceu no município de São Gonçalo (RJ). Em 2022, ele se mudou para Iguape, no litoral paulista, após obter a guarda do filho.
Na nova cidade, o brasileiro passou a trabalhar com vendas de eletrônicos e como motorista de aplicativo. No entanto, todo o dinheiro conquistado nos serviços acabou consumido pelo vício nas plataformas virtuais de apostas.
O ápice do transtorno ocorreu quando Moita perdeu R$ 75 mil em um único dia. A decisão de mudar os rumos da vida aconteceu após uma psicóloga revelar que ele apresentava indícios de um quadro de ludopatia.
"Eu estava me destruindo. Pensei: 'Eu preciso sair daqui, preciso mudar'. O meu pai me falou: 'Você já apostou tudo que você tem, agora vai apostar a sua vida?'", relatou o combatente. Para tentar frear os gastos, ele chegou a pedir que o pai confiscasse seu celular.
A decisão e a rotina
Com uma família formada por militares, Moita decidiu ingressar na Legião Internacional de Defesa da Ucrânia em março deste ano. A atitude não foi bem recebida por parte dos parentes, mas ele afirmou que o desafio mudou sua percepção sobre o dinheiro.
Na farda, o brasileiro carrega a tarja de identificação com o apelido "BadBoy", nome que usava com um grupo de amigos na infância em São Gonçalo. A rotina no país inclui missões que duram de uma semana a 40 dias e treinamentos diários de 12 horas para manuseio de armas, minas e explosivos.
VÍDEOS: g1 em 1 minuto Santos